Heitor acorda em seu apartamento em Copacabana. Pedro acorda na casa de seus pais, no morro da Rocinha.
Heitor come seu café da manhã feito por sua empregada. Pedro não tem tempo de comer, bebe só um café puro.
Heitor veste uma camisa polo e pega o carro automático do pai. Pedro veste o uniforme do mercado e corre para o ponto de ônibus.
Heitor desce à garagem, ouve música no carro com ar-condicionado.
Pedro entra em um ônibus lotado, em pé, ouvindo os áudios da aula de ontem.
Heitor chega cedo à empresa do pai. Abre o notebook, responde e-mails. Pedro chega atrasado ao mercado. Leva bronca do gerente, abaixa a cabeça.
Heitor almoça com colegas de trabalho num restaurante self-service. Pedro come um salgado frio nos fundos do mercado, sentado no chão.
Heitor sai mais cedo, passa na praia antes da aula.
Pedro sai correndo do trabalho, vai direto para o cursinho.
Heitor estuda Direito numa universidade pública. Foi aprovado depois de dois anos de pré-vestibular pago.
Pedro limpa o chão da mesma sala onde Heitor assistia às aulas do pré- vestibular. Estuda à noite, com apostilas velhas — acordo que fez com o dono do cursinho.
Heitor sai da aula distraído, dirigindo e mexendo no celular. Pedro sai exausto, o corpo doído de tanto trabalhar.
Os dois se encontram numa esquina mal iluminada.
Heitor vê um vulto se aproximando. Pensa que é assalto. Pisa no acelerador.
Pedro não tem tempo de reagir.
O impacto quebra o vidro. O mundo para por um segundo. O carro o esmaga contra uma parede.
Os dois morrem.
Heitor tinha 22 anos. Pedro também. O mesmo país que os criou, os matou.
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