O cheiro doce do melaço sempre vinha misturado ao de sangue. Felícia aprendeu isso na primeira noite no engenho de Dom Baltazar. Órfã desde criança, fora enviada ali como criada, sem escolha nem destino, entregue à rigidez de um mundo que já nascia com correntes invisíveis. As paredes da casa-grande eram largas, brancas e silenciosas durante o dia, mas ao cair da noite se enchiam de ruídos que pareciam ter vida própria: correntes arrastadas sobre o chão de pedra, gemidos abafados que surgiam de corredores que ninguém parecia atravessar, e um canto rouco, repetitivo e insistente, em língua que Felícia não conhecia, mas que fazia seus ossos estremecerem. Dandara, a escrava mais velha, era como uma sombra viva. Murmurava orações antigas, riscava símbolos na pele de Felícia enquanto ela dormia, seus dedos quentes e firmes, quase possessivos. “Para afastar o que vive aqui”, dizia, mas os olhos dela traíam medo, uma reverência que beirava a submissão a algo invisível. Felícia aprendeu ...