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Mostrando postagens com o rótulo contos

O Engenho das Almas

  O cheiro doce do melaço sempre vinha misturado ao de sangue. Felícia aprendeu isso na primeira noite no engenho de Dom Baltazar. Órfã desde criança, fora enviada ali como criada, sem escolha nem destino, entregue à rigidez de um mundo que já nascia com correntes invisíveis. As paredes da casa-grande eram largas, brancas e silenciosas durante o dia, mas ao cair da noite se enchiam de ruídos que pareciam ter vida própria: correntes arrastadas sobre o chão de pedra, gemidos abafados que surgiam de corredores que ninguém parecia atravessar, e um canto rouco, repetitivo e insistente, em língua que Felícia não conhecia, mas que fazia seus ossos estremecerem. Dandara, a escrava mais velha, era como uma sombra viva. Murmurava orações antigas, riscava símbolos na pele de Felícia enquanto ela dormia, seus dedos quentes e firmes, quase possessivos. “Para afastar o que vive aqui”, dizia, mas os olhos dela traíam medo, uma reverência que beirava a submissão a algo invisível. Felícia aprendeu ...

Manual para Amar sem Ser Visto

  Passo 0: O Amor de Quem Observa Doi Menos Nem todo amor precisa ser declarado. Alguns nascem no silêncio da tela, crescem no algoritmo e florescem nos comentários que você nunca envia. Este manual não é para os ousados. É para os fiéis. Para aqueles que sabem que o olhar, quando constante o suficiente, molda o mundo. Passo 1: Conheça Melhor do Que a Própria Pessoa Siga. Curta. Comente (mas só uma vez, e só emojis neutros). Depois, observe. Anote os horários de postagem, os padrões de luz nas selfies. Veja quais filtros ela mais usa, quais marcas mais repete. A constância revela. E você precisa saber antes de amar. Saber tudo. A Laura(nome fictício) posta stories entre 08h e 08h15 da manhã. Sempre depois do café da avó. Os olhos dela ficam um pouco mais fechados quando ela está triste, mas ela compensa com um efeito de brilho falso. Isso é importante. Passo 2: Simule. Construa a Vida Antes Que Ela Aconteça A realidade é falha. Por isso você deve criar outra. No The Sims, Laura é ...

O Último Nome do Deus Morto

  Eu despertei quando ninguém me chamava. O silêncio caía sobre mim como chuva sem água: pesada, imóvel, interminável. Durante eras, fui lembrado. Meu nome era oráculo, era chama sobre a terra, era promessa nos lábios dos homens. Hoje, sou sombra entre sombras. Cada pedra que pisava falava de abandono; cada vento soprava ecos de templos desfeitos. Não havia adoração, não havia prece, não havia nada além da lembrança do esquecimento. Tentei, nos primeiros anos, reconstruir-me. Alimentei-me de memórias, do pó de incenso que ainda se agarrava às paredes, do perfume de uma fé antiga que ainda grudava nos livros queimados. Mas a memória é frágil — e a fé, mortal. Percebi, então, que mesmo os deuses podem morrer de indiferença. O mundo continuava a girar, indiferente à minha existência. Eu caminhava entre ruínas que antes exalavam devoção, agora apenas poeira. Minha luz era tênue. Minha voz, sussurro de vento entre as pedras. Foi então que a ouvi. Ela entrou na capela em ruínas uma...

O quarto dos retratos

  O cheiro ácido do revelador queimava minhas narinas enquanto eu segurava o último negativo daquela manhã. Um militar sorria diante da lente, impecável em seu uniforme, o rosto iluminado pela luz dura do estúdio. Mas algo estava errado. Os olhos, antes atentos, agora pareciam opacos, como se a câmera tivesse sugado sua essência. Por um instante que durou séculos, tive a sensação de que ele me observava — não como quem é fotografado, mas como quem implora para não ser esquecido. Trabalhar no laboratório do jornal oficial me ensinara a dominar luz e sombra, mas nada poderia me preparar para o que aconteceria. Ao revelar a próxima foto, percebi que o militar do retrato anterior havia desaparecido. Apenas o fundo permanecia, intacto, como se a lente tivesse capturado um vazio absoluto. Meu coração acelerou. Respirei fundo, tentando racionalizar: luz, química, fadiga… alguma explicação técnica, certamente. Conforme revelei mais negativos, percebi que o fenômeno se repetia. Oficiais, co...

A Arte do Vazio

 Leonardo sempre foi um homem de obsessões. Desde jovem, ele tinha uma relação quase mística com a arte. Cada pincelada, cada detalhe minucioso, cada sombra e luz eram um reflexo de sua alma inquieta. Ele não pintava por prazer; pintava para capturar a essência daquilo que via e, com o tempo, a sua técnica se tornava mais apurada, mais inquietante. O que começou como simples estudos de retratos se transformou em uma busca quase insana por perfeição. Seus quadros eram tão realistas que, ao olhar para eles, parecia que a pessoa retratada estava prestes a se mover, a falar. Os olhos nos quadros seguiam quem os observava, a luz dançava nos tecidos pintados, criando um efeito tridimensional. Ele conquistou uma fama local, sendo chamado para pintar retratos das pessoas mais ricas e influentes da cidade. Mas foi quando ele começou a pintar sua esposa, Laura, que algo estranho aconteceu. A primeira vez que Laura viu o retrato de si mesma, ficou em silêncio. Era como se estivesse olhando...

A Floresta das Sombras

 Havia uma floresta no coração de uma cidade pequena, escondida pelas montanhas e coberta por uma densa neblina que a tornava impossível de ver à distância. Ninguém sabia exatamente onde ela começava ou onde terminava. Os moradores falavam sobre ela em sussurros, como se temessem pronunciar seu nome. Chamavam-na de "A Floresta das Sombras", e todos sabiam que não era um lugar a ser visitado. Por gerações, ninguém ousou se aproximar. Os mais velhos contavam histórias sobre a maldição que recai sobre ela, dizendo que qualquer um que entrasse naquela floresta simplesmente desapareceria, como se nunca tivesse existido. Não havia cadáveres, não havia vestígios, apenas um vazio absoluto onde a pessoa deveria estar. A floresta parecia engolir tudo. Foi quando uma jovem chamada Ella , nova na cidade, ouviu as histórias pela primeira vez. Ela era uma curiosa e não acreditava nas superstições locais. Ella tinha uma mente lógica, e isso a impelia a procurar respostas. As pessoas falav...