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O Engenho das Almas

 O cheiro doce do melaço sempre vinha misturado ao de sangue. Felícia aprendeu isso na primeira noite no engenho de Dom Baltazar. Órfã desde criança, fora enviada ali como criada, sem escolha nem destino, entregue à rigidez de um mundo que já nascia com correntes invisíveis.

As paredes da casa-grande eram largas, brancas e silenciosas durante o dia, mas ao cair da noite se enchiam de ruídos que pareciam ter vida própria: correntes arrastadas sobre o chão de pedra, gemidos abafados que surgiam de corredores que ninguém parecia atravessar, e um canto rouco, repetitivo e insistente, em língua que Felícia não conhecia, mas que fazia seus ossos estremecerem.

Dandara, a escrava mais velha, era como uma sombra viva. Murmurava orações antigas, riscava símbolos na pele de Felícia enquanto ela dormia, seus dedos quentes e firmes, quase possessivos. “Para afastar o que vive aqui”, dizia, mas os olhos dela traíam medo, uma reverência que beirava a submissão a algo invisível. Felícia aprendeu a temer não só o que via, mas também o que pressentia: uma presença que respirava nos cantos escuros, uma consciência coletiva do engenho que observava cada gesto, cada hesitação.

Com o passar das semanas, Felícia percebeu que o engenho prosperava nas noites de tempestade. Quanto mais violenta a chuva e mais longos os gritos que ecoavam pelos barracões, mais rápido e doce crescia a cana no campo. Era como se a própria terra se alimentasse do sofrimento humano, absorvesse os gemidos e as lágrimas, e os transformasse em seiva dourada. Cada planta que florescia parecia carregar consigo a memória das dores vividas ali, e Felícia começou a entender que naquele lugar não existia acaso: o engenho e seus habitantes estavam presos a um ciclo de sacrifício e fecundidade, de sangue e melaço, de medo e promessa.

Às vezes, quando a noite se alongava e o vento agitava as portas da casa-grande, Felícia jurava ouvir, entre o bater da chuva e o estalar das correntes, risadas distantes — vozes de quem já havia se perdido naquele mesmo ciclo, e que agora retornavam em ecos prontos para reivindicar mais uma alma.

Erro e mel azedo. O cheiro forte a fez engolir em seco antes mesmo de abrir a porta. Quando finalmente empurrou, Felícia se deparou com uma cena que parecia arrancada de um pesadelo: dezenas de corpos acorrentados, imóveis, mas de pé, como se fossem estátuas de carne e osso, aguardando algum chamado macabro. Seus olhos, opacos e sem vida, brilharam por um instante, e todos se moveram ao mesmo tempo para encará-la.

Um murmúrio baixo começou, crescendo lentamente, como se saísse da própria madeira da casa. As vozes se uniram num tom hipnótico, quase ritual:
— Mais um para adoçar o açúcar.

O coração de Felícia disparou. Tentou recuar, mas algo invisível, frio e pesado, agarrou seus tornozelos e pulsos, arrastando-a para dentro daquele círculo de espera. O ar parecia vibrar com a presença dos corpos, e cada respiração que tentava dar se transformava em um peso nos pulmões. Atrás dela, o riso satisfeito de Dom Baltazar cortou o silêncio, áspero e profundo, ressoando nos ossos.

A porta fechou-se com um estrondo que fez o chão tremer. O som das correntes arrastadas ecoava pela sala, misturando-se ao ronco da moenda lá fora. Felícia sentiu a seiva doce e amarga do engenho escorrer pelas paredes, e por um instante quase podia ouvir a cana crescendo, como se cada grito se transformasse em açúcar.

Ela percebeu então que o horror não estava apenas na visão daqueles corpos, mas na certeza de que o engenho vivia deles, e de que agora ela também fazia parte daquela colheita. Um arrepio subiu por sua espinha quando compreendeu que, por mais que tentasse fugir, suas mãos já estavam marcadas pelo mesmo ritual que alimentava aquela terra cruel.

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