No quintal da casa antiga, a bola rolava de um lado para o outro, quase sempre pelas mãos de meu avô. Ele dizia que o futebol era mais do que jogo: era memória, era vida. Contava, entre risadas, sobre tardes ensolaradas jogando nas ruas de paralelepípedo, sem juiz, sem regras fixas, apenas a alegria de correr atrás de uma bola com amigos que já não existiam.
Cresci ouvindo suas histórias como se fossem magia. Cada gol que ele narrava vinha com cheiro de grama molhada, com o estalo da bola batendo no chão e o som dos sapatos gastos. Era impossível não imaginar aquela meninice, aquela liberdade.
Quando eu tinha dez anos, ele me levou ao estádio pela primeira vez. “Aqui é onde o sonho vira realidade”, disse, segurando minha mão. O barulho da torcida me engolia; o cheiro de pipoca misturava-se ao suor e à emoção. Vi meu avô sorrir de um jeito que nunca esqueci, os olhos brilhando, lembrando-se de seus próprios gols, daqueles que ninguém registrou, mas que ele carregava para sempre.
Anos depois, no mesmo quintal, agora com meu filho correndo atrás da bola, percebi que a tradição se repetia. Meu avô já não jogava, mas seu riso ecoava através das gerações. Cada drible do meu filho lembrava um drible dele, cada chute um gol invisível que atravessava o tempo.
O futebol, percebi, não estava apenas nos campos ou nas arquibancadas. Ele vivia nos quintais, nas lembranças, nas histórias que passam de mãos em mãos, de coração em coração. Cada passe era um elo entre passado e futuro, e cada gol, uma lembrança de que, enquanto houver quem conte a história, ela nunca se perderá.
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