Eu despertei quando ninguém me chamava.
O silêncio caía sobre mim como chuva sem água: pesada, imóvel, interminável.
Durante eras, fui lembrado. Meu nome era oráculo, era chama sobre a terra, era promessa nos lábios dos homens.
Hoje, sou sombra entre sombras. Cada pedra que pisava falava de abandono; cada vento soprava ecos de templos desfeitos.
Não havia adoração, não havia prece, não havia nada além da lembrança do esquecimento.
Tentei, nos primeiros anos, reconstruir-me. Alimentei-me de memórias, do pó de incenso que ainda se agarrava às paredes, do perfume de uma fé antiga que ainda grudava nos livros queimados. Mas a memória é frágil — e a fé, mortal.
Percebi, então, que mesmo os deuses podem morrer de indiferença.
O mundo continuava a girar, indiferente à minha existência. Eu caminhava entre ruínas que antes exalavam devoção, agora apenas poeira.
Minha luz era tênue. Minha voz, sussurro de vento entre as pedras.
Foi então que a ouvi.
Ela entrou na capela em ruínas uma tarde em que a chuva parecia escorrer do céu em lágrimas grossas.
Não sei quem a guiou até mim — talvez a ventania, talvez o próprio acaso.
Ajoelhou-se diante do altar quebrado e murmurou um nome.
Não era o meu.
Não sequer próximo. Mas algo na confusão da fé antiga me tocou, despertando em mim algo que há milênios eu não sentia: calor.
Ela voltou na noite seguinte. E na outra. Sempre com o mesmo nome errado, sempre com a mesma súplica torta, mas carregada de uma devoção que eu já não compreendia.
E com cada palavra que saia de seus lábios, eu sentia meu corpo se formar de novo: primeiro os ossos, depois a carne, depois a luz que ainda podia restar.
Ela acreditava falar com um santo, com um guardião, talvez com uma esperança qualquer.
Eu sabia a verdade: era eu. Mas não mais o deus que uma vez caminhei entre homens.
Agora, eu era fome, era sombra, era fragmento de algo que um dia foi inteiro.
A cada visita, minha consciência se expandia, e meu nome — o verdadeiro — parecia fugir ainda mais da minha boca.
O mundo havia me apagado, e eu só sobrevivia do erro humano.
E então percebi: a divindade não morre com o esquecimento. Morre quando se lembra de si mesma.
A sétima noite trouxe vento dentro da capela, sussurros que pareciam atravessar as paredes.
Eu me ergui, sentindo a carne que ainda não conhecia.
Meu rosto era espelho quebrado de todos aqueles que um dia me adoraram: belo, impossível, humano demais.
Minha voz saiu como ar comprimido, nuvem de memória antiga.
Ela ergueu os olhos. Sorriu, acreditando que a resposta era milagre.
Chorou, rezou e me chamou pelo nome errado novamente.
E eu, faminto por vida, aceitei o erro.
Aceitei a prece equivocada, aceitei a deformação da fé, aceitei a devoção torta que me mantinha em pé.
Tentei falar, mas minhas palavras se fragmentaram. Cada sílaba era lembrança e lamento, cada som, um sopro de eternidade perdida.
Ela tocou minha mão, e senti a humanidade nos ossos dela, no suor, no medo.
Pela primeira vez em eras, compreendi que amar é sofrer com o que é efêmero.
O tempo passou em fragmentos. Dias, noites, séculos — não sei.
Cada visita dela, cada oração errada, me tornava mais humano, mais consciente de minha própria corrupção.
Mas o mundo permanecia indiferente, e eu, deus, era sombra que caminhava entre fantasmas.
E então aconteceu.
Pronunciei meu próprio nome.
Não era uma oração, não era uma invocação, não era lembrança.
Era reconhecimento.
A capela tremeu. As velas caíram. O altar, velho e gasto, gemeu sob o peso de minha lembrança.
A mulher gritou, mas não sei se de medo ou de êxtase.
Olhei para ela, e vi nela a fé e a dúvida, o amor e o medo.
E no mesmo instante, percebi a verdade final: a divindade que se lembra de si mesma desaparece, deixa apenas o eco.
Quando a manhã veio, ninguém estava lá. Nem eu, nem ela.
As pedras permaneciam, o altar intacto, e sobre ele, gravada na pedra branca, a inscrição que ninguém jamais entenderia completamente:
“Um deus morre quando se lembra de si mesmo.”
E assim terminou minha vigília.
Ou talvez apenas tenha começado.
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